Death Friend · Originais

Death Friend

Nota da Autora: Comecei a escrever este “livro” muitos, muitos anos atrás, ainda na adolescência. Por isso, peço perdão pelo trocadilho bobo do nome. Eu não quis trocar simplesmente porque acaba se tornando muito divertido ver algo “secreto” compartilhando assim, em público, após tantos anos. Sem mais delongas, publico o primeiro conto original extraído de livro!

Nome: Death Friend
Autora: Belle Black
Tipo: Conto
Gênero: Ficção Sobrenatural – Vampiros
Status: Concluída
Número de Páginas: 16
Avisos: Contém violência física.
Resumo: Após um golpe rápido e letal por parte da monarquia humana que subjugou os líderes vampíricos, transformando-os em seus escravos de sangue, os vampiros vivem sob o domínio humano há quase um século. Durante esse período, sem o conhecimento da humanidade, os poucos sobreviventes que não foram capturados vivem em segredo, planejando não apenas sua retomada ao poder (que antes do golpe era compartilhado pacificamente entre a monarquia humana e vampírica), como também sua vingança.

DEATH FRIEND

 

When you think you’ve succeeded but something’s missing
Quando você acha que obteve sucesso mas está faltando alguma coisa
Means you have been defeated by greed, your weakness
Significa que você foi derrotado pela ganância, sua fraqueza
Life is often miserable in the search for happiness
A vida é muitas vezes miserável na busca pela felicidade
The power, so desirable
O poder, tão desejável
If we weren’t so insatiable, there would be much more than less
Se não fossemos tão insaciáveis, haveria muito mais do que menos
I just take care of myself and no one else
Eu só tomo conta de mim mesmo e de mais ninguém
Life is often cynical in the search for hopefulness
A vida é muitas vezes cínica na busca por esperança
We’re only wanting more and more, so we got into this mess
Nós só queremos mais e mais, então nos metemos nessa confusão
All that you’ve taken from others will be taken from you
Tudo que você tem tomado dos outros será tomado de você
Whatever happens tomorrow and whatever you do
O que quer que aconteça amanhã e o que quer que você faça
Just keep in mind that the source and end is you
Apenas tenha em mente que a fonte e o fim é você

Another Me In Lack’ech – Epica

Eu tenho uma amiga. Uma melhor amiga.
Meus olhos e ouvidos escanearam todo o perímetro ao redor antes de voltarem a se focar no gorducho do outro lado da rua. Tudo estava limpo, eu constatara. Éramos, de fato, os únicos por alguns bons quarteirões. As pessoas realmente não tinham mais o costume de sair à noite, e para completar, era uma madrugada fria e a chuva fraca caía há horas. Uma nítida fumaça branca desprendia-se de seu copo quente de café, subindo em espirais de calor pelo ar gelado. Aquilo não me agradou, porque tudo que se come influencia no gosto de sangue. Sangue. Senti uma ferroada ansiosa de sede fazer brilhar meus olhos de vidro sob a lente castanha com a perspectiva de mais um pequeno pedaço de vingança se aproximando.
O guarda não estava atento, provavelmente congelando sob as gotas finas, então ele só percebeu a minha presença quando eu quis que ele o fizesse, caminhando na frente dele, mas não em sua direção.
“Ei, senhorita!”, pude ouvir a surpresa em sua voz.
Vivíamos em uma sociedade que apesar de não temer a força vampírica, evitava a noite. O atual governo podia ter distorcido muitas verdades, mas uma coisa sempre permanecera de conhecimento geral: a noite pertencia aos vampiros. Por esse motivo, vida noturna existia apenas aos finais de semana e resumia-se a festas e atividades de entretenimento geral em conglomerados de prédios e estabelecimentos muito bem iluminados e populados. Ninguém deixava sua própria zona residencial e quando o fazia sempre era em caravanas também muito bem escoltadas e iluminadas. O fato da população humana ser muito maior do que a vampírica sempre pautou sua segurança com relação a nós, assim como a luz. O sentido desta última era puramente psicológico, pois apesar de o sol ser absolutamente letal, luzes artificiais não exerciam qualquer efeito sobre nós. De qualquer forma, era inusitado ver uma mulher andando desacompanhada àquela altura da noite.
Passado o choque inicial, ele veio até mim polidamente e felizmente não tive que fazer muito esforço para não modificar minha expressão conforme uma pressão horrível foi envolvendo meu corpo, proveniente do brilho cegante de uma correntinha discreta pendendo de seu pescoço.
Não sou do tipo de idiota que perde tempo – e corre riscos – brincando com a comida. A vingança que eu busco não está em provocar um homem cuja morte fora decretada ao ser escolhido por mim pouco antes de drená-lo. Meu objetivo era maior e o que me faria avançar em direção a ele era o que viria a seguir, portanto não faria a menor diferença respondê-lo.
O nome dela? Morte.
A proximidade com a prata retardava meus movimentos e reflexos, mas eu consegui levar minhas mãos até o pescoço, perigosamente perto da corrente, e destroncá-lo. Seu corpo pendeu mole em meus braços, e senti minha pele queimar ao contato com o metal. Ignorei a dor alucinante ao arrancar o fio sem pingente e atirá-lo ao boeiro mais próximo.
Apurei meus sentidos mais uma vez a fim de garantir que não seria seguida e comecei a correr.
Não precisar de ar puro é uma vantagem quando se tem de viver em porões fechados e quase a nível de metrô. Escondida por detrás de latas de sardinha e sacos de farinha, em uma despensa de mantimentos, há uma escada que conduz até nossa morada. Dois lances levam a um saguão para reuniões e festas nada glamoroso, um escritório para nossos líderes, e a área de alimentação, que é um lugar que lembra bizarramente a salas de hemodiálise.
Entrei no ambiente claro e desinfetado dando uma olhada para ver se havia mais alguma coisa para beber ali além do que eu trouxera, mas todas as cadeiras estavam vazias.
“Sarah, novamente você quebra recordes”, saudou-me a garota responsável pela sala de alimentação. “Você já tomou sua parte?”
Devido as nossas condições de vida, não havia como todos os vampiros caçarem e se alimentarem a vontade, em especial as crianças. Assim, tínhamos uma espécie de sistema onde dividíamos todas as nossas presas. Dessa forma, o alimento continuava escasso, mas garantíamos que todos tinham acesso a ele. Como quem havia pego a caça, eu tinha direito a uma parte extra de sangue que poderia ser retirada antes ou depois de apresentá-la aos registros.
“Alguém trouxe alguma coisa hoje?”, perguntei.
“Só alguns filhotes.”
“Não gosto disso.”
“Sua moral não tem sentido, Sarah. Eles não pensam antes de matar os nossos filhos.”
“Não é essa a questão. Filhotes chamam muito mais a atenção e não rendem quase nada. É trabalho de preguiçoso.”, falei. “Bem, eu vou sair novamente e ver se consigo arranjar mais alguma coisa.”
Ela acenou em aprovação.

Por sorte a chuva havia diminuído muito, transformando-se em gotas grossas e dispersas. Assim como para os animais, a água dificultava muito o rastro pelo olfato. Escolhendo minha direção baseada no fato de que mudar a zona de caça ajudava a não chamar atenção para humanos desaparecendo durante a noite sem deixar rastro, corri uns bons quilômetros para o centro. Dividindo os desaparecimentos por região, o próprio índice de criminalidade humana dava conta de camuflar nossas ações.
Ao contrário da região onde apanhara o guarda mais cedo, aquela área do condado era mais comercial. Não havia nada aberto aquela altura da noite, mas mesmo assim não levou muito tempo até que eu a avistasse.
Era muito magra e muito alta e, infelizmente para ela, estava na hora errada no lugar errado. Não era incomum fazer vítimas prostitutas porque elas sempre estavam em situação de risco: sozinhas, à noite, fora de centros familiares. Acabavam sempre cruzando nosso caminho. Havia algo mais que as tornava presas ainda mais fáceis: apesar de tão humanas quanto todas as outras pessoas, ninguém se importava com elas. Quando uma prostituta desaparecia, ou mesmo aparecia morta, as pessoas não só não se comoviam como também achavam natural que mulheres que se colocavam naquela posição tivessem destinos assim. Mais, algumas pessoas achavam até que elas tinham feito por merecer aquele tipo de fim. Era terrível e cruel e me fazia ter ainda mais nojo da raça humana. Mas não era problema meu.
Aquela garota em específico era muito atenta. Mesmo me aproximando calmamente para não assustá-la, ela logo virou-se para mim:
“Não divido espaço.”, rosnou, mas ao olhar para mim mais uma vez, percebeu que minhas roupas não tinham nada a ver com sua profissão. “Companhia, querida?”, sua voz saiu num tom falsamente sedutor que me deu nojo por ela. E pena.
Toquei seu braço esperando pela dor, mas ela não veio. E senti realmente pena. Ela não tinha nada de prata. E todos os humanos usavam algo de prata, não porque acreditassem que ainda havia resistência vampírica, disso eles não faziam ideia, mas por pura precaução, afinal por mais que nós estivéssemos sob seu controle, eles ainda viviam e conviviam em mundo repleto de predadores. Aquela garota simplesmente não devia ter dinheiro para comprar, já que a prata, justamente por causa de nós, era o metal mais valioso. Ou devia ter sido roubada.
“Ei”, continuou ela. “Faz tempo que não fico com uma garota, mas acho que não perdi o jeito ainda”, ela passou os braços pelo meu pescoço. Eu a virei para mim e a abracei por trás, senti seu cheiro… para ser bem sincera, não era o melhor que eu já provei, mas…
Quando as caçadas eram bem próximas a sede do clã, eu podia me dar ao luxo de destroncar a vítima e levá-la morta, mas como a distância de hoje é maior, eu não podia correr o risco do sangue esfriar. Eu iria deixá-la apenas desacordada. Só que assim que segurei seus cabelos a fim de bater sua cabeça no poste atrás de nós, ela gritou. Golpeei seu crânio mesmo assim, porém quando estava pronta para começar a correr com ela o som quase silencioso de algo em movimento pelo ar chamou a minha atenção. Ergui os olhos dela apenas para identificar uma bala cortando o ar em nossa direção. Imediatamente mergulhei ao chão com a garota. Agora que eu estava prestando atenção o silenciador do revólver não podia impedir que eu ouvisse os movimentos de manuseio da arma.
Eu não tinha como correr carregando duas pessoas ao mesmo tempo, mas eu também não podia deixar testemunhas para trás. Mas eu podia me alimentar do atirador e levar a garota inteira para o restante do clã.
Cheguei até ele tão depressa que não teve tempo nem de assimilar o que estava acontecendo antes que eu cravasse meus dentes em seu pescoço. Bebi. Bebi como não bebia há muito, muito tempo. Eu havia me esquecido completamente como era enebriante poder sugar até a última gota. Em poucos segundos, larguei no chão o corpo sem nenhuma cor, nenhuma vida.
Ainda extasiada pelo sangue, não percebi de imediato a gravidade da situação quando duas coisas aconteceram muito rápido:
Primeira, a parede de vidro do banco no qual eu estava em frente explodiu em milhares de estilhaços que voaram para cima de mim em uma chuva de pedaços e pó de vidro. E segunda, e mais relevante: diversos sons diferentes preencheram o ar; passos, gritos e tiros, muitos tiros.
Por puro instinto atravessei a moldura de vidro quebrado que restara em pé para dentro do banco, buscando refúgio atrás da fileira de caixas eletrônicos. Balas normais nem sequer penetravam o couro resistente de um vampiro, causavam apenas um leve desconforto devido ao calor, mas nada com o que eu precisasse me preocupar. Eu não achava que as balas eram de prata porque havia montes delas espalhadas pelo chão a minha frente e nenhuma sensação dolorosa vinha delas para mim.
Bem, isso eliminava qualquer possibilidade de que quem quer que estivesse me atacando soubesse que eu era uma vampira. Ao menos não até poucos minutos, quando me alimentara a céu aberto. Isso também diminuía consideravelmente a possibilidade daquele ser um confronto com força policial. Quem mais poderia ter acesso a metralhadoras? A única opção restante era membros do tráfico local.
Se eles não tivessem nenhuma prata, não seriam problema algum para minhas habilidades sobre-humanas. O problema era somente um: exposição.
Se eu saísse do abrigo para enfrentá-los e eles descobrissem que eu não era humana, eu poderia expor toda a minha espécie. Porém, eu não podia simplesmente ficar escondida ali enquanto eles descarregavam suas armas porque a qualquer momento a força policial poderia aparecer, e se eu fosse capturada os estragos seriam irreparáveis.
Esse era o tipo de coisa que poderia mudar o rumo das próximas décadas, séculos até, assim como a decisão do nosso rei de deixar o domínio vampírico de lado e passar a tratar humanos como iguais, transformando nossa monarquia absoluta em compartilhada – um rei vampiro e um humano – havia alterado a vida na Terra para sempre. Alguns séculos mais tarde, a ideia do rei acabou revelando-se catastrófica. Motivados pela sede de poder, o controle total das propriedades curativas de nosso sangue e o desejo de ocuparem o topo da cadeia alimentar, os humanos travaram uma breve guerra contra nós que dizimou a população vampírica. Aproveitando-se de nossas fraquezas: sol, fogo e prata, do dia para noite nossa espécie foi dominada pela humanidade.
O que os humanos não sabiam era que alguns de nós haviam conseguido sobreviver sem serem capturados, criando O Clã. Unidos, conseguimos juntar recursos suficientes para que pudéssemos sobreviver fora do radar todos esses anos e planejar e preparar cada detalhe de nossa vingança. Levasse o tempo que levasse, nós iríamos reascender ao poder, nós iríamos libertar nossos irmãos, e nós iríamos ter nossa vingança.
Porém… caso eu tomasse a decisão errada, eu poderia colocar tudo a perder essa noite. Fosse como fosse, eu precisava agir.
Desejando realmente ser o demônio que a mídia pregava que nós éramos, saí para a chuva de balas, marchando na direção do pequeno grupo.
Pelo que eu podia ver, eles estavam em três pessoas, mas só possuíam uma metralhadora. Me dirigi primeiro ao cara com um revólver comum porque ele era o que estava mais longe do cara com o cordão de prata. Quando ele viu que eu me aproximava especificamente dele, atirou diretamente em mim. A bala comum deixou uma marca de pó preto, mas não penetrou minha pele de aço. Ao perceber o que havia acontecido, o homem ficou mais lívido do que a maioria dos vampiros que eu conheço.
“Santa Mãe de Deus.”, ele murmurou, de olhos arregalados, fazendo o sinal da cruz.
“Péssimo chute.”, caçoei, chegando mais perto.
Arranquei o revólver de sua mão sem dificuldade e o atirei longe, causando uma explosão. Ele ainda tentou correr, mas não conseguiu dar nem um passo antes que eu o atirasse ao chão, avançando para sua jugular com a plena consciência de que se os outros ainda não sabiam que eu era uma vampira antes, agora não restavam dúvidas.
Eu precisava agir mais rápido do que nunca.
Quando me levantei, o outro cara com arma comum não estava em nenhum lugar a vista, o que deixava apenas o líder, com a corrente e a metralhadora. Esperei que estivesse fortalecida o suficiente para derrotá-lo apesar do enorme objeto anti-vampírico.
A corrente era enorme e foi insuportável chegar cada vez mais perto. Cada fibra do meu organismo implorava para que eu me recuasse, mas não parei de avançar. A pressão em volta de mim foi tanta que mal consegui manter os olhos abertos e um ruído agudo entonou no fundo de minha cabeça. Maldito Judas e suas moedas de prata.
Tentei direcionar o foco de todos os meus sentidos para além da metralhadora e da corrente de prata, diretamente para a jugular dele, para que meus instintos me ajudassem a ter força suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. A veia era grossa e se eu me esforçasse podia ouvir o sangue passando por ali mesmo com o barulho dos tiros intermitentes. Renovada com esses pensamentos, rumei em sua direção.
Sem raciocinar que as balas ricocheteando em mim poderiam atingi-lo a qualquer momento, o homem apontava a metralhadora diretamente para mim. Não contive um sorriso de prazer quando uma das balas o perfurou no ombro, fazendo-o cair de joelhos. Me aproximei, certa da vitória.
Apesar da dor lancinante, não gritei quando minhas mãos ficaram em carne viva ao segurar a pesada corrente e atirá-la para o mais longe dali possível. Como eu já estava ferida, infelizmente não consegui enviá-la para longe o suficiente para que eu não sentisse mais nenhum efeito, porém só de estar fora de sua aura já aliviou todas as sensações no meu corpo.
Afundei meus caninos no pescoço dele assim como fizera com todos os outros.
Não fossem meus ferimentos causados pela prata e pela queimadura das balas, eu poderia dizer que nunca estivera mais forte. Eu certamente nunca havia me alimentado de três organismos inteiros e minha sede nunca estivera tão saciada. Apesar disso, eu só iria me curar durante o dia, quando estivesse dormindo.
Antes que eu pudesse me levantar, um novo movimento vindo do alto chamou minha atenção. Vislumbrei uma massa negra ao mesmo tempo em que ela atingiu minhas costas, levando-me ao chão. O cara que eu não tinha mais visto cambaleou para fora de cima de mim. Ele havia pulado da sacada do primeiro andar do prédio às minhas costas. Isso foi muito inteligente da parte dele levando em conta que ele não poderia me pegar de surpresa caminhando e nem mesmo ganhar da minha velocidade, mas ao se esgueirar e se esconder pelo prédio enquanto eu estava distraída com seu líder ele garantira que só fosse percebido no momento de seu ataque. Bem pensado. Mas não o suficiente para evitar que ele se juntasse aos outros.
“Eu sempre soube que não deveria me desfazer disso aqui.”, disse ele apontando um revólver para mim ao mesmo tempo em que eu me levantava do chão.
A pressão que imediatamente se espalhou pelo meu corpo me alertou que aquele revólver estava carregado com balas de prata. Ele estava mirando diretamente para o meu coração, que era exatamente o ponto sensível de um vampiro, o que também demonstrava que ele sabia exatamente o que estava fazendo, demonstrava que ele sabia que tinha completamente em suas mãos o poder para me matar.
As pessoas geralmente têm medo dela. Os vampiros, mais do que qualquer outra pessoa, vivem atormentados com a ideia dela. Para alguém tecnicamente imortal, a ideia de morrer é ainda mais apavorante. Talvez tenha sido por isso que chegamos ao ponto que chegamos.
“Devia ter trazido ela em primeiro lugar”, continuou ele, “Eu deveria saber que ainda tem monstros soltos por aí.”
Nunca entendi por que as pessoas tinham mania de fazer discursos em situações como essa. Eu nunca fazia isso, porque era algo que simplesmente te distraía e dava espaço suficiente para o adversário armar uma saída.
Comigo não foi diferente.
A minha situação não era nada boa, admito. Lidar com humanos e seus reflexos inferiores é uma coisa. Lidar com armas que nem sequer perfuram minha pele é uma coisa. Lidar com um humano portando uma arma que pode me incapacitar ou até matar é um pouco diferente. Eu não podia simplesmente atacá-lo e lidar com quaisquer consequências mais tarde. Um passo em falso e eu poderia cair para sempre.
A questão com aquele cara é que havia alguma coisa pela qual ele lutara até ali. Traficantes defendem sua comunidade, é verdade, mas havia alguma outra coisa em jogo. Aquela mulher, a prostituta, percebi, era importante para alguém ali – e também minha única chance. Naturalmente, eu não a via desde que a deixara caída inconsciente vários minutos atrás.
Contando com minha velocidade sobre-humana, tentei correr até lá sem me matar no processo. Obtive um sucesso parcial. Meu coração enegrecido e que nunca batia permaneceu intacto, mas uma bala se alojou em minha clavícula espalhando não somente a terrível pressão, como também uma sensação de que eu estava sendo queimada por dentro, por todo o meu corpo. Em qualquer outra noite isso teria praticamente me tirado de combate, mas eu estava forte demais por causa de todo o sangue que havia consumido e consegui me manter firme, apesar de com os poderes retardados.
Evidentemente a tentativa de encontrar a mulher foi em vão. Ela não estava mais lá. Mas não havia passado muito tempo e ela estava ferida, não poderia ter ido muito longe. Para piorar, agora havia voltado a chover e isso dificultava rastreá-la pelo seu cheiro, porém, com alguma concentração, fui capaz de identificar o barulho molhado de suas sandálias plataforma tropeçando apressadamente no chão de paralelepípedos e sua respiração ofegante com todo o esforço físico não tão longe dali. E eu sabia exatamente onde havia paralelepípedos naquela região.
Apesar de ferida, ela já havia corrido alguns bons metros e eu não deixei de apreciar o quanto ela era rápida e ágil para uma humana. Infelizmente para ela, apesar de suas habilidades físicas especiais, ainda assim não deixava de ser humana e eu a alcancei sem que ela nem tivesse percebido que a luta anterior havia acabado.
O homem nos alcançou pouco tempo depois e eu pude ouvir seu coração acelerar quando entramos em seu campo de visão. O olhar preocupado que ele lançou à mulher que chorava e engasgava sob o aperto da minha mão confirmou que eu apostara minhas fichas corretamente.
Pendurada para fora do parapeito da ponte, a única coisa que impedia a mulher de cair na água lá embaixo era minha mão em volta de seu pescoço. Isso não a impedia de engasgar compulsivamente, quase morta por asfixia, é claro. Não precisei dizer nenhuma palavra para que ele compreendesse minhas intenções: se ele se aproximasse, se ele atirasse, se ele fizesse qualquer coisa basicamente, ele não só perderia a vida dela, como também jamais seria capaz de encontrar seu corpo, que seria levado pela correnteza sob a chuva forte muito antes que ele conseguisse chegar ao nível da água.
“O que te faz pensar que eu me importo com a vagabunda?”, ele blefou, mas seu coração descompassado e seus olhos arregalados não me enganavam.
Ergui uma sobrancelha.
“Você não tem que machucar ela.”, começou ele.
Ignorei.
“O diabo não fala?”, ele questionou.
“Não com a comida.”
Ele deu um riso nervoso. Eu podia ver que não estava muito acostumado com vampiros. Nossa espécie sempre teve uma população muito menor do que a humana, mesmo antes da guerra. Até havia um programa de reprodução assistida – e forçada, devo acrescentar – a fim de assegurar que jamais faltassem vampiros para a mão de obra, e, principalmente, para o uso de nosso sangue em tratamentos medicinais; mas, mesmo assim, não era comum para alguém fora da elite ver um de nós pessoalmente. Além disso, eu podia apostar que até mesmo quem estava acostumado a conviver conosco se surpreenderia com um vampiro que não estivesse desnutrido pela alimentação animal e escassa, e não-enfraquecido pela coleira de prata.
Ele girou o gatilho.
“Não atire nela. Você sabe, não se deve desperdiçar comida.”, provoquei novamente.
A cada segundo que se passava um alarme berrava na minha mente que eu estava incendiando o meu mundo.
Atirei a mulher para cima dele e os dois caíram no chão de pedra, o revólver disparou e um tiro passou por mim de raspão deixando um rastro em carne viva no meu rosto. Avancei para ele, determinada a destroçá-lo de uma só vez, mas ele descarregou a arma em mim. Felizmente, nenhuma bala atingiu meu coração. Emiti um som raivoso. Ele ainda tentou recarregar o revólver, mas aproveitei essa janela de tempo e, urrando de dor, arranquei-o do chão e drenei-o em tempo recorde.
Quando atirei seu corpo inerte para fora do caminho, a notei a mulher chorando alto e, ainda assim, tentando se arrastar pelas pedras que feriam seus joelhos desnudos, numa última tentativa desesperada e em vão de escapar com vida. Seu drama não me comoveu.
Tomada de fúria, ataquei-a. Inacreditavelmente ela ainda teve forças para lutar. Era inacreditável. Depois de tudo, a desgraçada ainda tinha forças para agarrar-se a vida. Eu havia acabado de dominar e matar um grupo de quatro homens armados, mas quem se recusava a morrer era a puta indefesa.
Em qualquer outra noite, talvez eu a tivesse poupado em um arroubo de misericórdia provocado por respeito a sua tenacidade. Mas as coisas não paravam de acontecer e eu detestava aquela noite. De péssimo humor, não me havia sobrado mais nenhuma gota de paciência.
A briga não durou muito. Eu estava extremamente ferida, mas ainda uma imortal. E uma imortal sem a menor paciência. Determinada a encerrar aquilo de uma vez por todas, arranquei a cabeça dela com ferocidade. A bola de osso, carne e miolos tombou pesadamente com os olhos abertos e a boca arreganhada.
Pela quinta vez naquela noite, me entreguei ao delírio do sangue.
A morte não é minha melhor amiga porque eu não a temo, embora eu realmente não o faça, mas porque ela é meu consolo diário. Cada vez que eu tomo um pedaço da minha vingança, cada vez que eu consumo, gota a gota, a vida daqueles que massacraram o meu universo. A cada vez, é o único momento em que minha existência faz sentido.
Olhei ao redor, tentando mensurar o tamanho do incidente em que havia me metido. Parecia muito, muito ruim. O que também já estivera melhor era o meu estado físico. Até as gotas de chuva e vento provocavam ondas terríveis de dor. Não havia tempo nem força para que eu pudesse fazer qualquer outra coisa além de me afastar daquele local. Contando que todo o sangue que eu havia consumido seria suficiente para me fazer chegar em casa a salvo apesar dos ferimentos, corri de volta para casa.
Assim que pisei no primeiro degrau da primeira escada soube que a repercussão da última hora seria muito maior do que eu estava imaginando. O saguão outrora vazio e silencioso estava uma confusão. Aparentemente todo os membros do clã, incluindo A Cúpula – como chamávamos os descendentes mais próximos da família real, quando esta existia – estavam reunidos ali. Até mesmo as crianças estavam presentes. Todos conversavam, alguns muito exaltados, as crianças faziam barulho e algumas choravam. Quando a primeira pessoa notou minha presença, e então todos os pares de olhos transparentes voltaram-se para mim, silêncio se abateu por todo o salão como uma mortalha.
De repente, uma voz doce em timbre, mas não em tom, se fez ouvir:
“Por aqui, Sarah.”
Eu deveria saber que Keli seria a primeira a se apresentar para cavar a minha cova. É claro que seu rosto de porcelana marcado por uma pinta charmosa na face esquerda seria o primeiro a se destacar da multidão.
Como se eu tivesse uma doença contagiosa, todos abriram caminho para que eu pudesse segui-la até o escritório.
“Sente-se.”, ela ordenou apontando para uma maca que não ficava ali normalmente e devia ter sido trazida a ordens dela, que, proativa como sempre, devia ter imaginado que eu ia chegar ferida.
Obedeci.
Ela se aproximou de mim e eu tentei não me encolher, sabendo o que viria a seguir.
Keli enfiou o dedo magro e pálido – contrastando diretamente com o meu tom latino e raríssimo – em um dos buraco no meu pescoço, puxando a bala para fora. Eu sabia que ela estava sendo afetada pela prata também – inclusive esse era o motivo de seu pronto atendimento rápido e eficaz, para se livrar de algo que afetava a todos, e não por bondade de seu coração para me ajudar. -, mas nada em sua expressão transpareceu isso. A única coisa que provou que eu não estava errada foi seus dedos em carne viva quando saíram de mim. Ela depositou a bala em um lenço, mas isso era um mero objeto para facilitar o transporte das balas quando ela tivesse terminado, porque os efeitos eram os mesmos. Vampiros não podiam tocar em prata. Ponto final. Nenhuma barreira entre a pele e o metal amenizaria seus efeitos.
“Eu posso fazer isso sozinha.”
“Você já fez o suficiente sozinha.”
O fato de que Keli parecia bem mais preocupada do que satisfeita me deixou em alerta. Eu não era a maior fã dela, e isso era recíproco, portanto ela seria a primeira a querer tripudiar sobre meus erros.
Keli era filha de Cassimiro – a coisa mais próxima que tínhamos de um rei atualmente – e possuía um enorme senso de dever e, bem, uma profunda necessidade de aprovação. Competente, dedicada e muito inteligente, ela tinha esses tipos de qualidades físicas associadas à mentais que a destacavam. Mas, assim como eu, Keli era subestimada por três motivos: juventude, gênero e beleza. Com a ideia medieval de que mulheres não estavam a altura dos homens, especialmente em assuntos socialmente ligados ao gênero masculino como guerra, estratégia e combate, não éramos levadas tão a sério quanto nossos irmãos. Por mais feitos memoráveis que conseguíssemos realizar, sempre estávamos um passo atrás deles.
Além disso, no caso de Keli, havia um agravante: ela possuía uma beleza delicada, que era lida como frágil, como uma donzela a ser protegida. Eu até podia ser gostosa, mas parecia forte e resistente, uma lutadora. Mesmo vindo da alta Cúpula, ela sempre estava na sombra da minha reputação. E isso ela não perdoava. Eu também não perdoaria.
Bem, para falar a verdade, estivera, até agora, já que eu não fazia ideia de qual efeito os recentes acontecimentos havia causado ao meu status. Ao status de todo o meu mundo.
Assim que Keli terminou de arrancar todas as balas do meu corpo – e eu comecei a vazar um sangue preto e morto -, ela me deixou sozinha para se livrar da prata.
Minha solidão não durou muito porque assim que eu não conseguia mais sentir a proximidade das balas, as portas se abriram novamente e Cassimiro entrou. Desci imediatamente da maca, fazendo uma reverência.
Atrás de Cassimiro, vinha Jarvan. Se Cassimiro era o descendente mais próximo de nosso último rei, Jarvan era a coisa mais próxima que tínhamos de um general. Ele ficou parado, sempre em posição de guarda, próximo da porta, enquanto Cassimiro caminhou com passos firmes até mim num instante que pareceu uma eternidade. Quando chegou a minha frente, ele inclinou-se suavemente para que seus olhos de vidro ficassem no mesmo nível em que os meus.
É claro que nossos olhos não eram de vidro de verdade. “Olhos de Vidro” era uma maneira dos humanos se referirem a nós por causa de nossas íris transparentes. Não cinzas, não azuis, transparentes.
Existe um ditado que diz que os olhos são o espelho da alma. Isso ajudou os humanos a desenvolverem o conceito de que vampiros não têm almas, nem sentimentos, por isso o espaço que deveria refleti-las era vazio, deixando à mostra os outros aspectos puramente anatômicos do olho. Essa ideia era a principal verdade absoluta que a mídia vinculava sobre nós, para justificar suas ações, e para inflamar a cólera geral da população, em especial a religiosa, contra nós.
Isso nunca fizera qualquer sentido para mim, especialmente porque eu estava acostumada a ver crianças, calorosas, inocentes e puras, como todas as crianças devem ser, com os mesmíssimos olhos de vidro, e eles não eram nada vazios. No entanto, enquanto ele me encarava, eu compreendi o que os humanos queriam dizer com sem alma. Simplesmente não havia nada ali.
“Diga-me, Sarah, enquanto todos nós trabalhávamos incansavelmente em prol da nossa raça, como você ocupou seu tempo essa noite?”
“Eu fui caçar, senhor.”
“Foi caçar? Mas, se estou correto, você já não havia trazido sua caçada de hoje?”
“Sim, senhor, mas sempre tento trazer mais de uma presa porque quase nunca há muito o que beber.”
Ele se endireitou sem deixar de me encarar. Não respondeu por um longo minuto, simplesmente porque não havia como contestar o que eu havia acabado de dizer. Cassimiro se empertigou todo e caminhou teatralmente ao redor da escrivaninha.
“Como é a sensação, Sarah? Como é a sensação de saber que você arruinou um século de planos?”
“Senhor…”
Assim que abri minha boca para falar, ele segurou meu pescoço com força, fazendo-me engasgar em meu próprio sangue. Decidi que, assim como a garota a qual eu havia feito passar exatamente pela mesma coisa vários minutos mais cedo, o karma era uma puta.
“Ela está ferida… precisa repousar.”, interveio o Jarvan.
“Bem, graças a ela, não temos tempo para isso. E ela não vai morrer”
Certamente eu não iria morrer. Só havia duas formas de matar um vampiro: a primeira e mais terrível era a exposição ao sol; e a segunda era através do empalamento com uma estaca de prata no coração. Atualmente, balas de prata eram forjadas no formato de mini estacas, então elas podiam matar também, mas não deixava de fazer parte do segundo método. Todo o resto poderia ferir e incapacitar e até mesmo fazer definhar, mas não iria matar. Isso não amenizava nem um pouco a dor torturante que eu estava sentindo.
“Agora os humanos sabem sobre nós. Está em todos os jornais: olhos de vidro a solta!”, continuou Cassimiro.”Cem anos, Sarah. Cem anos de planejamento. Cem anos reunindo recursos. Cem anos de sacrifícios… jogados fora em uma única noite! Pelo quê? Uma putinha magricela?!”
“Infelizmente perdemos o elemento surpresa, é verdade, porém ganhamos o que iríamos necessitar de qualquer forma: uma distração.”, argumentou Jarvan.
Jarvan não era uma figura de compreensão ou solidariedade, mas era uma figura de praticidade e estratégia. Ele sabia o quanto eu sempre caçava mais do que todos os outros. Ele sabia que, até hoje, eu nunca falhara, e era a maior responsável por alimentar o clã. Ele sabia que eu era competente. E ele sabia que se eu tinha metido os pés pelas mãos, não fora por minha culpa. Ele também sabia que não havia como mudar o passado, mas havia como montar um plano de ação para o futuro.
Cassimiro não pareceu considerar aquilo nem por um segundo, o que significava que antes mesmo de eles virem me encontrar, a Cúpula já devia ter traçado todas as nossas ações a partir de agora, e Cassimiro estava ali apenas para me torturar.
“Se você não fosse tão essencial, seria executada hoje mesmo… infelizmente, não há tempo tempo de substituí-la.”
Ele afrouxou as mãos de meu pescoço.
“Vá repousar. Amanhã você precisará de forças. Daremos início ao plano. Se você falhar, não há nada vivo ou morto que a poupará da minha ira.”
“Sim, senhor.”
Quando passei por Jarvan, ele roçou sua mão na minha brevemente e assentiu com a cabeça. Aquilo era o mais próximo que qualquer pessoa já havia chegado de segurar minha mão ou mesmo de me abraçar, exceto na infância. Era uma rara demonstração de solidariedade e até mesmo de afeto que me surpreendeu. Eu o encarei com meus grandes olhos escuros, agradecida, e deixei o local.
Passei pelo saguão que agora estava vazio como sempre e rumei para a outra escada, a que levava à câmara dos adultos. Essa área consistia em uma grande sala cheia de caixões nem tão bonitos nem tão pomposos quanto você possa imaginar. Era simplesmente um espaço repleto de caixões simples e sem graça, dispostos em fileiras lado a lado.
Encontrei o meu e me arrastei até ele, deixando um rastro de sangue quase preto e morto pelo caminho. Abri a tampa e me forcei para dentro com dificuldade, contendo um gemido de dor. Com exceção do sol e da prata, a maior vulnerabilidade de um vampiro era só se curar em seu repouso, no caixão, durante o dia. Enquanto houvesse luz na Terra nós deveríamos estar em nossas moradias revitalizando a imortalidade e, se assim ocorresse, acordaríamos mais saudáveis e mais fortes do que no dia anterior, mas até lá nossos ferimentos nos castigavam como a qualquer outra espécie.
Deitei-me, imediatamente sendo tomada pela sensação de amolecimento e vibração. Eu não queria pensar em nada do que havia acontecido, nem em suas consequências. Eu só queria relaxar, relaxar e me livrar dos meus machucados. Além disso, eu sabia que a hora do amanhecer não estava muito longe e a maldição sob a qual minha espécie fora criada fazia com que o momento fosse de dor insuportável e a única coisa que nos salvava desse momento era o repouso.
Utopia, é claro. Eu não estava conseguindo me desligar e ao invés de me ajudar, meus músculos tencionavam-se já esperando a dor chegar, impedindo o meu sono. Novidade alguma. Eu nunca conseguia dormir. Eu presenciava essa dor quase todos os dias quando o primeiro raio de sol tocava a superfície da Terra.
Dor, eu me acostumei a ela. Talvez o sofrimento seja tão frequentemente presente em minha vida, que já tenha penetrado o meu âmago, camuflando-se como parte de mim, quase imperceptível. Está sempre lá, me consumindo por dentro, mas eu nunca realmente percebo conscientemente.
Quando finalmente aconteceu, minha expressão se encheu de aflição, mas eu controlei o grito estrangulado na minha garganta, embora ouvisse os de alguns colegas de recinto. Eu nunca compreendi essa parte da maldição, mas a dor do dia surgindo lembrava-me a sensação de um cobertor de prata em brasa sendo posto sobre um boneco de plástico, então o corpo do boneco derretia e escorria, voltando a endurecer sem posição logo em seguida. Era essa a sensação que se espalhava em meu corpo todo, porque o sol havia nascido.
Em meio a insanidade da agonia, trinquei os dentes para não gritar, e, mais uma vez, busquei consolo na imagem mental de quatro torres indo à ruína… só que dessa vez eu não precisava mais sonhar, porque amanhã o palácio real finalmente vai cair.

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