Faded · Originais

Faded

When you’re gone all the colors fade
Quando você se vai todas as cores desbotam
You’re gone
Você se foi
Colors seem to fade
As cores parecem desbotar

Colors – Amos Lee

You’re ripped at every edge but you’re a masterpiece
Você está rasgado em cada borda mas você é uma obra-prima
And now I’m tearing through the pages and the ink
E agora estou rasgando as páginas e a tinta
And now I’m covered in the colors
E agora estou coberta com as cores
Pulled apart at the seams
Rasgada nas costuras

Colors – Halsey

“Querido Hugo,
Desculpe-me por te incomodar essa hora da noite, e pelos possíveis erros de digitação. Estou escrevendo apressadamente e, você sabe, ainda não me acostumei muito com a tecnologia.
Mas eu sou mãe.
Você ainda não sabe como é segurar um embrulhinho sabendo que seu dever é proteger e, acima de tudo, amar aquele pequeno ser inofensivo que estende mãozinhas frágeis e toca seu rosto como sua única forma de expressar carinho e confiança.
Desde pequenino, sempre soube que teria que proteger Caio mais do que os pais geralmente imaginam ter que proteger seus filhos. Caio nunca foi como os outros meninos. Fascinado por cores e com uma imaginação mais fértil do que a maioria das crianças de sua idade, ao longo do tempo encontrou na pintura, no desenho e na moda, a perfeita ferramenta para criar seu próprio universo e expressar seu dom transformando-o em beleza.
Com o passar do tempo, sua orientação sexual ficou exposta de forma natural. Às vezes, quando alguma colega desavisada ou simplesmente maldosa insinuava algo sobre garotas, ou até mesmo perguntava diretamente, em tom de segredo, espanto, e problema absoluto, se ele era gay, minha resposta, com meu maior sorriso de orgulho, sempre foi “não é evidente?”.
Eu nunca vi qualquer problema nisso, para mim Caio era simplesmente meu adorável filho, que, sim, eu sempre soube, algum dia traria outro rapaz para almoçar conosco e o apresentaria como meu genro. No entanto, eu também sempre soube que lá fora, no mundo cruel e real, sua segurança era ameaçada. Meu único problema com a sexualidade de Caio era meu medo do que ele poderia enfrentar lá fora. Infelizmente, meus temores se tornaram reais mais vezes do que gostaria. Em toda sua vida escolar, Caio foi xingado, agredido e humilhado diversas vezes.
Toda vez que o telefone tocava quando ele não estava em casa, meu coração ia na boca. Só que na primeira vez em que adentrei a diretoria para encontrar meu filho com um joelho sangrando porque o colega o empurrara de um balanço na hora do recreio, tomei a decisão de não me acovardar. Eu não iria “cuidar disso em casa” e tampouco iria “aceitar um pedido de desculpas”, não assim, só para encerrar o assunto, sem qualquer medida educativa ou preventiva para que aquilo não acontecesse mais. Não. Eu iria erguer minha voz e eu iria proteger meu filho. Então, desde a primeira vez, nenhum desses xingamentos, agressões ou humilhações passava batido. Nunca passava como um incidente qualquer entre crianças. E toda vez, mesmo que apenas um pouquinho, eu batalhava para que o mundo futuro de Caio – e de tantas outras pessoas – fosse um pouquinho mais tolerante e melhor.
Sabendo que era amado, apoiado e respeitado e sendo peça fundamental para que a tolerância e a informação fossem disseminadas em praticamente todos os lugares em que passou, Caio cresceu e se tornou o rapaz maravilhoso que me orgulha tanto e que você conhece tão bem.
Você ainda não sabe como é ter tanto orgulho de uma criaturinha que se formou e desenvolveu nas suas vistas completamente do zero. Mas um dia saberá, e entenderá que não importa que ele não seja mais um embrulhinho azul-claro ou não tenha mais mãozinhas frágeis. Ou mesmo que ele frequente uma academia de luta, praticando golpes, sendo capaz de proteger não somente a si próprio, como também aos outros.
Nada disso vai importar, porque ele ainda será seu filho, e seu dever ainda será protegê-lo contra tudo e todos.
Há pouco recebi um zap daquela garota esposa do Luizinho, Daiane, se não me engano, pedindo-me em tom repreendedor para buscar Caio. Saí às pressas e francamente, pelo estado dele, quase não posso culpar a jararaca.
Perdoe-me por tais comentários maledicentes, mas uma garota tentando expulsar meu filho ferido de sua casa por puro ciúmes da amizade dele com seu marido me deixa profundamente furiosa.
Quando tudo começou, eu soube que havia algo de errado assim que ele saiu do banho com cabelo castanho. Após anos mudando drasticamente de cor, do laranja ao verde escuro, do roxo ao platinado, ele me aparece com um castanho médio… É claro que era mais uma forma de se expressar, assim como ele sempre fizera, através de cores. Não que eu precisasse desse detalhe para saber que tem alguma coisa de muito, muito errado. Posso ouvir seus soluços da cozinha enquanto escrevo.
A garota Daiane enviou também uma caixa, mas estou presumindo que você já conheça essa história.
Você se lembra daquele Natal quando Caio foi chamado para trabalhar às pressas porque uma atriz da Globo tinha resolvido se casar em segredo na virada do ano e precisava de um vestido e nós apenas guardamos o almoço e resolvemos organizar o quartinho? Se lembra que encontramos relíquias como sapatinhos, brinquedos e fotos dele quando criança?
Nenhuma daquelas coisas tem um real significado para meu filho, ele nem se lembra delas. Tampouco aquelas coisas fazem parte de quem ele é. São apenas lembranças.
Mas não o conteúdo dessa caixa. Elas não são objetos de auxílio à memória. Elas não somente contam a história de vocês, elas são a história de vocês. Cada ingresso de evento, cada foto, cada embalagem de presente.
E agora elas estão reduzidas a quinquilharias amontoadas num depósito apertado que evidentemente eu não consegui manter organizado. Provavelmente entre o saco de ração de cachorro e panos de chão pouco usados.
Não é assim que uma história deve acabar.
Não sei o que houve, mas essa foi a única palavra inteira que ele, aos prantos, conseguiu pronunciar. “Acabou.”
Você sabe que é como um filho para mim, querido. Até que você magoa meu filho.
Especialmente porque se há uma coisa da qual eu nunca tive dúvidas, é o amor dele por você. Seja lá o que tenha acontecido, tenho certeza de que o desejo de Caio de ser o amor da sua vida permanece o mesmo. Jamais questione isso.
Eu também sei que em toda história há dois lados, e que você não é uma pessoa injusta.
Mas Caio é uma criança. Ele é abraço, beijo de esquimó, “eu te amo” do nada, café fresco, bolo quente, cafuné, dormir de conchinha, sorvete de morango, vídeos de gatinhos e tudo o que há de bom.
Meu filho é cor pura.
E sem você ele parece desbotar.
Honestamente,
Lurdes”

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3 thoughts on “Faded

  1. Boa noite, sou deyson monteiro, amo muito a literatura, e admiro seu trabalho no YouTube. Estou fazendo aos poucos uma coleção literária, e gostaria de receber livros seu, você é demais, meu facebook deyson monteiro, o meu email dyson.11.monteiro @hotmail.com o meu tel 22 996115111 meu canal YouTube deyson monteiro. Amei ver seus vídeos, e amo a literatura, me ajuda por favor. Me envie livros, se precisar dou meu endereço, sou do RJ. Obrigado.

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